“Olha que vão falar que a gente tá namorando, hein?”, brinca Ney Matogrosso com cara de travesso, ao ser abraçado e beijado por Leandro Veira no momento de posar para esta foto. A dupla esteve na redação de OGLOBO para gravar o “Conversa vai, conversa vem” (videocast que vai ao ar neste domingo, às 8h, no Youtube e no Spotify), falando sobre o carnaval da Imperatriz Leopoldinense. A escola desfila neste domingo (15) com o enredo “Camaleônico” em homenagem ao cantor e assinado pelo carnavalesco, dono de cinco títulos na Sapucaí.
Bem distante de um namoro, o que se se viu durante a sessão de retratos foi os dois sem medo de demonstrar afeto, dando um show da masculinidade que a gente quer. Algo parecido deve acontecer na Avenida, quando uma ala masculina surgirá vestida de rosa da cabeça aos pés, com as pernas cobertas por meia-arrastão. Vão representar a canção “Homem com H”, clássico do repertório de Ney.
— Essa letra é um tributo à masculinidade tóxica. O que Ney fez ao gravá-la foi debochar desse imaginário de masculinidade, transformando-o numa caricatura e dizendo: “Isso aqui é estereótipo, porque eu sou homem com H”. Usei do mesmo deboche pegando o universo das vedetes, dos boás, com corte de roupa onde as entrepernas ficam abertas para mostrar a fragilidade desse discurso de masculinidade — explica Leandro.
Ney revela que os motivos que lhe causaram resistência em gravar a canção nos anos 1970 passaram bem longe desse tema:
— Era um forró, e eu não sou do Nordeste. Achava que seria oportunismo cantar. Aí, o Gonzaguinha, que era da mesma gravadora, foi ao estúdio. Mostrei a ele e disse que estava com dúvidas. Ele falou: “Você é a única pessoa que pode cantar isso e mudar todo o sentido machista da história”. Entendi tudo: eu não estava falando sério, mas dizendo: “Não me confundam porque gosto de ser homem, mas não tenho limite pra essa coisa, para me requebrar, para ficar seminu.
Ele segue explicando a origem do seu despir:
— Eu morria de calor! Então, pensei em ter um tapa sexo e pendurar um monte de coisa nele que ampliasse meus movimentos. Sempre usei a nudez pelo meu prazer de estar em cena com pouca roupa e não para agredir alguém. Sou meio índio.
Nudez na Avenida passa, então, a ser assunto da conversa:
— Sempre existiu, mas a gente não vê mais gente pelada. Antigamente, era mais livre, mais liberado — observa Ney.
Leandro acredita que ter Ney como tema é um prato cheio para botar tema na roda.
— Nudez na Sapucaí virou tabu. Acabaram associando o vestir-se bem ao vestir-se totalmente. Ney fez da pouca roupa um manifesto político. Não tem como a escola que vai vestir-se de Ney estar coberta com excessos. Nosso personagem é um banho de liberdade, tanto que encerraremos o desfile com um banho hedonista de prazer, de sexo, de mistérios e entregas.
O discurso pela liberdade sexual, que permeia a obra de Ney, será um “perfume jogado pela escola toda”.
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— Embora o Ney não goste da palavra “militar”, ele militou a vida inteira pelo direito de ser quem se é. Acabou abrindo portas, fez florescer sementes de discursos identitários e sexuais que temos hoje. Isso apenas sendo. É o mais político que uma pessoa pode ser. Tentei fazer um carnaval em que a individualidade dos corpos fossem respeitadas e a nudez caminha diretamente para encontrar o enredo — afirma o carnavalesco.
O desfile da verde e branco explora a diversidade da obra do Ney, “meio homem, meio bicho, o silêncio e o grito, pássaro e mulher”, como diz o samba enredo. Explora a identidade multifacetada, a liberdade, o perfil rebelde, transformador. O tom é de transgressão do começo ao fim. Em vez de cronologia, Leandro aposta na estética de Ney, que pôs seu “corpo insubordinado” a serviço de sua arte, tendo como fio condutor canções que marcam cada fase de sua carreira.
— Nunca gostei da ideia de biografias cronológicas, mas de recorte específico. No caso do Ney, o enredo foca na obra que ele cantou em mais de 50 anos. Só que Ney não é só uma voz extraordinária. Mais que o tamanho das canções, há o conjunto de imagens criadas por ele. É um cara que faz do corpo um manifesto estético, acompanhado de personalidades que foram se tornando muitas com o tempo — analisa. — Tem o Ney do Secos e Molhados, do “Homem de Neanderthal”, de “Bandido” . O enredo mergulha nessa figura que é voz, música, mas também é corpo e personagens múltiplos. Por isso, é camaleônico. É um artista que, como poucos, soube se colocar no palco para ser muitos e, ao mesmo tempo que foi tantos, foi exclusivo, porque é único.
‘Nem fiz doce’, diz Ney Matogrosso
É curioso pensar que Ney Matogrosso, sempre repleto de plumas e penas, passou tanto tempo sem ter relação alguma com o carnaval. Desde os anos 1970, ele recebia convites para virar enredo de escola de samba. O carnavalesco Fernando Pinto foi o primeiro a levar um “não”. Queria que o cantor viesse em cima de um abacaxi, que se abriria revelando pessoas nuas. O artista reconhece que o mito de que não aceitava ser homenageado na Sapucaí era verdadeiro. Por que, então, disse “sim” a Leandro Vieira?
— Calhou de ser a hora. Estou me sentindo disponível para tudo. Eu nem fiz doce — diverte-se Ney.
Ganhar flores em vida, aos 84 anos, em plena produção artística, está sendo bom, confessa.
- Pedro Bial. ‘O melhor que tenho para dar é agora’
- Paolla Oliveira. ‘Vim de uma educação em que não podia sonhar’
— As pessoas deviam ser homenageadas vivas, aí faz sentido. Nem me sinto um homenageado, sinto que pegaram minha figura e história para fazer um enredo. Estou gostando de tudo. E me aproximei. Não estou mentindo, né, Leandro?
O carnavalesco confirma que não, não está. Ney acompanhou de perto o processo, deu opiniões, sugestões. Entendeu todas as referências às músicas. O match é fruto de um interesse genuíno que Leandro sempre teve pelo artista.
— Sou fã. Li todas as entrevistas, vi documentários. Conheço as declarações, a maneira como se comporta no mundo. É um cara que me interessou a vida inteira. Tudo que criei na vida foi com ele cantando no meu ouvido. Então, a gente sabe o que propor e o que não propor.
Ney também abriu seu universo criativo a Leandro, um baita privilégio.
— É um luxo poder mandar um WhatsApp para o Ney Mato Grosso com seus desenhos e figurinos.
O início do desfile, adianta Leandro, será “alucinógeno”, em alusão não só aos tempos em que Ney caiu dentro de experiências com LSD (“era um por dia”, contou ele, em entrevista ao GLOBO em 2021), mas também ao universo de permissividade e ludicidade evocado pelo artista. A partir daí, vem o mergulho nas canções.
— Também busquei o Ney do discurso, como em “Sangue latino”, que denúncia o extermínio das populações latino-americanas.
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Leandro pediu que o homenageado não fosse aos ensaios técnicos na Sapucaí. Quis guardar o impacto para a hora H. “Noivo só vê a noiva no altar”, justifica. Mas Ney foi no QG da escola, em Ramos, onde se jogou no corpo a corpo com o povo.
— Gosto desse contato físico. Não estou falando de sexo, mas do contato amoroso. Não acho que estou pervertendo ninguém.
Ele também dançou com seu jeito sensual e lânguido enquanto a bateria comia solta.
— Não sei sambar, então, não adianta querer porque não vou convencer. Me mexo do meu jeito. É o que vai acontecer na Avenida. Espero não fazer feio por não estar sambando.
A gente sabe: quando Ney surgir na Avenida em cima de um carro alegórico dentro de um macacão verde ouro colado ao corpo vai fazer é um bonito.