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Drama político, ‘Yellow letters’ vence o Festival de Berlim


“Yellow letters”, dirigido pelo cineasta alemão Ilker Catak, ganhou o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim neste sábado, em uma cerimônia que refletiu a controvérsia sobre Gaza que marcou a edição deste ano.

Alguns premiados se manifestaram a favor da causa palestina, reagindo à polêmica gerada pelo presidente do júri, Wim Wenders, que tentou desviar o festival do tema.

A diretora do festival, Tricia Tuttle, reconheceu neste sábado que a edição deste ano foi “emocionalmente carregada” após dias de debates, por vezes acalorados, sobre até que ponto o cinema deveria intervir na política.

O filme de Catak conta a história de um diretor turco e sua esposa, uma atriz, que são repentinamente impedidos de trabalhar por causa de suas opiniões políticas.

Wenders classificou o filme como “uma premonição aterradora, um vislumbre de um futuro próximo que possivelmente também poderá acontecer em nossos países”.

Embora ambientado na Turquia, o filme foi rodado na Alemanha, uma escolha artística para enfatizar que as ameaças à liberdade são universais.

O cineasta turco Emin Alper recebe o Urso de Prata, Grande Prêmio do Júri, por seu filme "Kurtulus" (Salvação) durante a cerimônia de premiação da 76ª Berlinale — Foto: Ralf Hirschberger/AFP
O cineasta turco Emin Alper recebe o Urso de Prata, Grande Prêmio do Júri, por seu filme “Kurtulus” (Salvação) durante a cerimônia de premiação da 76ª Berlinale — Foto: Ralf Hirschberger/AFP

O segundo lugar, o Grande Prêmio do Júri Urso de Prata, foi para “Salvation”, de Emin Alper, que em seu discurso expressou solidariedade a diversas figuras proeminentes da oposição presas na Turquia, incluindo o prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu.

O filme de Alper, inspirado em uma história real, mostra as consequências de uma disputa de terras entre dois clãs em uma remota aldeia nas montanhas.

Ele aproveitou a oportunidade para falar em nome do “povo do Irã que sofre sob a tirania” e dos “curdos em Rojava e no Oriente Médio que lutam por seus direitos há quase um século – vocês não estão sozinhos”.

Alper também falou sobre “os palestinos em Gaza que vivem e morrem sob as condições mais terríveis”.

Alper não foi o único premiado a expressar apoio aos palestinos.

O diretor sírio-palestino Abdullah Al-Khatib ganhou o prêmio de Melhor Primeiro Filme por “Crônicas do Cerco”.

Ele aceitou o prêmio com um keffiyeh sobre o ombro e fez um discurso apaixonado, no qual se dirigiu ao governo alemão dizendo: “Vocês são cúmplices do genocídio em Gaza perpetrado por Israel.”

Ele foi aplaudido por suas palavras, mas também recebeu algumas vaias, refletindo a tensão sobre Gaza que frequentemente ofuscou o evento deste ano.

Em uma coletiva de imprensa no início do festival, na semana passada, Wenders respondeu a uma pergunta sobre o apoio do governo alemão a Israel dizendo: “Não podemos realmente entrar no campo da política.”

Na mesma coletiva de imprensa, ele havia dito que os filmes têm o poder de “mudar o mundo”, mas de uma maneira diferente da política.

Seus comentários em resposta à pergunta sobre Israel, no entanto, provocaram uma onda de indignação.

A premiada romancista indiana Arundhati Roy, que apresentaria uma versão restaurada de um filme de 1989 de sua autoria, desistiu do evento, classificando as palavras de Wenders como “inaceitáveis” e “estarrecedoras”.

Na terça-feira, uma carta aberta assinada por dezenas de figuras da indústria cinematográfica, incluindo os atores Javier Bardem e Tilda Swinton e o diretor Adam McKay, condenou o “silêncio do Festival de Berlim sobre o genocídio palestino” e o acusou de estar envolvido na “censura” de artistas que se opõem às ações de Israel.

Tuttle rejeitou veementemente as acusações.

Wenders abordou a controvérsia no sábado.

“A linguagem do cinema é empática. A linguagem das redes sociais é eficaz”, disse ele. E, dirigindo-se a ativistas políticos, afirmou: “Todos nós os aplaudimos. Vocês fazem um trabalho necessário e corajoso.”

Outros vencedores de prêmios no sábado incluíram a atriz alemã Sandra Hueller, que recebeu o Urso de Prata de Melhor Atriz por seu papel principal em “Rose”, de Markus Schleinzer.

O drama em preto e branco conta a história de uma mulher que se faz passar por homem na Alemanha rural do século XVII para escapar das restrições do patriarcado.

A atriz alemã Sandra Hüller posa para fotos após ganhar o Urso de Prata de Melhor Atriz no 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim — Foto: Ronny Hartmann/AFP
A atriz alemã Sandra Hüller posa para fotos após ganhar o Urso de Prata de Melhor Atriz no 76º Festival Internacional de Cinema de Berlim — Foto: Ronny Hartmann/AFP

“Queen at Sea”, do diretor americano Lance Hammer, estrelado por Juliette Binoche como uma mulher que cuida de sua mãe com demência, levou dois prêmios. O filme retrata a devastação que a doença de Alzheimer inflige aos entes queridos do paciente.

Tom Courtenay, de 88 anos, e Anna Calder-Marshall, de 79 anos, que interpreta a mãe doente no filme, dividiram o Urso de Prata de Melhor Ator Coadjuvante. O filme também recebeu o Prêmio do Júri Urso de Prata, considerado o terceiro prêmio mais prestigioso.

Grant Gee ganhou o prêmio de Melhor Diretor por “Everybody digs Bill Evans”, sua cinebiografia em preto e branco do lendário pianista de jazz.



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