O ex-deputado de oposição venezuelano Juan Pablo Guanipa, detido pelas forças de segurança pouco depois de deixar o cárcere, no domingo, está na cidade de Maracaibo, afirmou o filho dele, Ramón, nesta terça-feira. Desde domingo, quando foi levado por homens armados, não havia informações sobre seu paradeiro, e aliados acusaram o governo de sequestro.
“Confirmo que meu pai, Juan Pablo Guanipa, está em nossa casa em Maracaibo. Estamos aliviados em saber que nossa família estará reunida em breve”, disse Ramón, em mensagem publicada na conta do pai na rede social X, na qual agradece o presidente dos EUA, Donald Trump. “Meu pai permanece injustamente preso, pois prisão domiciliar ainda é prisão, e exigimos sua plena liberdade, assim como a liberdade de todos os presos políticos.”
Juan Pablo Guanipa, ex-vice-presidente da Assembleia Nacional e próximo da líder opositora María Corina Machado, ficou preso por quase nove meses, acusado de conspiração, e estava em um grupo de 35 detidos por crimes políticos libertados pelo governo da presidente interina, Delcy Rodríguez.
Horas depois de ganhar a liberdade, Guanipa se juntou a um ato diante do Helicoide, a temida prisão política do chavismo (e que Delcy prometeu fechar), no qual abraçou famílias de presos políticos e fez um discurso exigindo a libertação imediata de todos, além de novas eleições.
— Em 28 de julho de 2024, o povo falou; houve uma decisão popular — afirmou à AFP, referindo-se às eleições passadas, que a oposição alega terem sido fraudadas pelo presidente deposto Nicolás Maduro e que serviram de estopim para uma onda de protestos e repressão. — Queremos respeitá-la? Vamos respeitá-la. (…) Não querem respeitá-la? Então vamos ter um processo eleitoral.
Para a Procuradoria-Geral venezuelana, se tratou de uma violação das medidas cautelares de sua liberdade, o que motivou um novo pedido de prisão, desta vez domiciliar. Diosdado Cabello, ministro do Interior, criticou a “estupidez de alguns políticos”, sem citar Guanipa.
— Meu pai não cometeu nenhum crime nem violou nenhuma das medidas cautelares a que estava sujeito. Tenho a ordem de soltura do meu pai, que afirma claramente que as únicas condições a que ele estava sujeito eram comparecer perante o tribunal a cada 30 dias e estar proibido de sair do país — acrescentou o filho de Guanipa, em entrevista coletiva na segunda-feira.
Até que seu paradeiro fosse confirmado, parentes e aliados cobraram publicamente os chavistas por informações. Em Washington, María Corina Machado disse que “isso demonstra que estamos enfrentando não apenas um regime criminoso, mas um regime que tem pavor da verdade, que tem pavor de seus cidadãos”. O ex-diplomata e ex-candidato à Presidência, Edmundo González Urrutía, declarou que “a falta de informações sobre o paradeiro de Juan Pablo Guanipa configura um desaparecimento forçado”. Ramón Guanipa reiterou que “falar, dizer e se expressar não são crimes”.
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Desde a intervenção armada americana que culminou com a captura de Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro, os chavistas anunciaram a libertação gradual de prisioneiros políticos. Segundo a ONG Foro Penal, que presta assistência jurídica a opositores, 426 pessoas foram libertadas, mas como demonstra o caso de Guanipa, elas seguem monitoradas e, em alguns casos, sujeitas a outras formas de restrição de liberdade . Para a oposição, medidas que põem em xeque o compromisso das autoridades com o período pós-Maduro.
No final de janeiro, Delcy Rodríguez submeteu à Assembleia Nacional um projeto de lei para conceder anistia a todos os presos e processados por delitos políticos desde 1999, ano em que Hugo Chávez chegou ao poder. Ela ainda prometeu fechar o Helicoide e dar início a um processo de reconciliação, mas analistas veem o texto da anistia como “vago”, com brechas que poderiam ser usadas contra dissidentes.
A primeira votação ocorreu na semana passada, e a segunda deveria acontecer nesta terça-feira, mas foi suspensa na véspera. Segundo o Legislativo, a sessão prevista para esta terça coincide com uma marcha convocada pelo chavismo em ocasião do Dia da Juventude. Uma outra sessão está marcada para quinta-feira, mas a pauta não foi divulgada pela mesa diretora.