Pesquisadores da Universidade Duke, em Londres, e do Hospital Al Shifa na Faixa de Gaza descobriram que cerca de 116 mil pessoas ficaram feridas durante a guerra no enclave entre 7 de outubro de 2023 e 1º de maio de 2025. Desses feridos, segundo o estudo publicado nesta quinta-feira na revista eClinicalMedicine, eles estimam que cerca de 46 mil necessitem de cirurgia reconstrutiva. A equipe ainda afirmou que espera que esse número aumente para até 68 mil até maio, caso as hostilidades não diminuam ou cessem.
— Este é um número muito elevado. Esses ferimentos são bastante complexos e exigem cuidados especializados que não estão disponíveis em Gaza— disse o médico Zaher Sahloul, cofundador da organização humanitária MedGlobal, que não participou do estudo, em entrevista à ABC News.
O estudo constatou que cerca de 80% das lesões que exigiram cirurgia reconstrutiva provavelmente ocorreram em decorrência de explosões causadas por ataques aéreos. Essas explosões, segundo os autores, ocorreram principalmente em áreas urbanas.
Desde o início da guerra, em 7 de outubro de 2023 — quando o Hamas lançou um ataque terrorista surpresa em Israel, que matou cerca de 1.200 israelenses — as ofensivas de Israel causaram um enorme número de feridos entre a população civil palestina. No entanto, os autores observam que coletar dados precisos é um desafio em zonas de conflito devido à destruição de instalações de saúde, às mortes de profissionais de saúde e às restrições de informação impostas pelo bloqueio.
Há muito que trabalhadores humanitários dizem que o sistema de saúde em Gaza estava em colapso, o que reduz a capacidade dos hospitais fornecerem cirurgias de reconstrução. Além disso, estradas foram destruídas — dificultando o acesso a algumas áreas — e, de acordo com os trabalhadores, escombros podem estar escondendo munições não detonadas, tornando perigosas algumas viagens para coletar dados ou prestar assistência.
— Os principais hospitais que costumavam realizar cirurgias reconstrutivas em Gaza também ficaram sem equipamentos e especialistas capacitados para realizá-las — afirmou Sahloul.
Os autores também escreveram que abordar a crescente lacuna entre a necessidade de cirurgia reconstrutiva devido ao conflito e a capacidade do sistema de saúde “exige um consenso sobre o volume e o padrão das lesões, bem como a capacidade de prever lesões futuras”.
A equipe construiu um modelo usando dados de ataques, mapeamento aeroespacial e estimativas de densidade populacional de fontes humanitárias, governamentais e da mídia. O modelo, portanto, constatou que, até maio de 2025, ocorreram entre 29 mil e 46 mil lesões que exigiram cirurgia reconstrutiva.
Sahloul, que estava em Gaza no início de 2024 trabalhando nas cidades de Khan Younis e Rafah, disse que ele e seus colegas viram um grande número de lesões por esmagamento — que ocorrem quando força ou pressão excessiva é aplicada em uma parte do corpo — após eventos com múltiplas vítimas.
— A maioria desses pacientes fica sem tratamento adequado para as feridas e cirurgia reconstrutiva devido à falta de cirurgiões disponíveis — disse ele à ABC. — E a guerra piorou ainda mais depois que eu saí. Então, não me surpreenderia se esse número fosse preciso, embora seja muito difícil prever com exatidão o número de pacientes.
De acordo com o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, pelo menos 1.500 pessoas foram mortas desde o anúncio do cessar-fogo, em outubro do ano passado. E, por isso, não seria surpreendente ver o número de feridos graves aumentar, segundo Shaloul.
— Esses números são astronômicos e, se forem precisos, representam um enorme fardo para o sistema de saúde da região — afirmou o médico. — Infelizmente, a maioria desses pacientes terá complicações, infecções e morrerá enquanto aguarda a cirurgia.