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‘A verdade diante de nossos olhos’


Diante do pequeno esqueleto exposto sob vidro, a italiana Nicoletta Benolli, de 65 anos, não conteve a emoção.

— Em um momento como esse, temos a verdade diante de nossos olhos — resumiu.

Para ela, que viajou de Verona até Assis, a experiência foi “único”.

“Corpus Sancti Francisci”, informa a inscrição em latim gravada na vitrine de acrílico, lembrando aos visitantes a quem pertencem os ossos do santo falecido em 1226.

Desde as 7h (horário local), quando as portas do templo foram abertas, uma longa fila se formou do lado de fora. Segundo os organizadores, cerca de 400 mil pessoas já reservaram horário para a visita. A expectativa é de receber até 15 mil fiéis por dia durante a semana e 19 mil aos sábados e domingos.

Restos mortais de São Francisco são expostos ao público pela primeira vez em Assis, na Itália — Foto: AFP
Restos mortais de São Francisco são expostos ao público pela primeira vez em Assis, na Itália — Foto: AFP

O relicário transparente que guarda os restos mortais, geralmente mantido sob proteção em um cofre de metal na cripta, foi retirado na manhã de sábado. Desde 1978, os ossos permaneciam protegidos no interior do túmulo de pedra. Antes da atual exibição, haviam sido mostrados apenas uma vez, naquele mesmo ano, por um único dia e a um grupo restrito.

O pequeno esqueleto — cujo crânio foi danificado durante a transferência para a basílica, no século XIII — repousa sobre um pano de seda branca. Fundador da ordem dos franciscanos, Francisco renunciou à riqueza da família para viver na pobreza e dedicar-se aos mais necessitados. Seu corpo foi levado para a basílica erguida em sua homenagem em 1230, mas o túmulo só seria redescoberto em 1818, após escavações realizadas sob absoluto sigilo.

Restos mortais de São Francisco são expostos ao público pela primeira vez em Assis, na Itália — Foto: AFP
Restos mortais de São Francisco são expostos ao público pela primeira vez em Assis, na Itália — Foto: AFP

Para o frei Giulio Cesáreo, diretor de comunicação do convento franciscano de Assis, a iniciativa pode tocar até mesmo quem não professa a fé cristã.

— [A iniciativa] pode ser uma experiência significativa tanto para crentes quanto para não crentes, pois Francisco testemunha, com esses ossos tão danificados, tão consumidos, que se entregou completamente — afirmou.

Restos mortais de São Francisco são expostos ao público pela primeira vez em Assis, na Itália — Foto: AFP
Restos mortais de São Francisco são expostos ao público pela primeira vez em Assis, na Itália — Foto: AFP

Segundo o religioso, a veneração das relíquias faz parte da tradição cristã desde os primeiros séculos.

— Desde a época das catacumbas, os cristãos veneram os ossos dos mártires, as relíquias dos mártires, e nunca as consideraram verdadeiramente algo macabro — explicou.

O que “os cristãos ainda veneram hoje, em 2026, nas relíquias de um santo” é “a presença do Espírito Santo”, acrescentou.

A estrutura que envolve o relicário inclui vidro à prova de balas e de arrombamento, além de câmeras de vigilância 24 horas.

— O que é verdadeiramente belo, e não estava inicialmente planejado, é o fato de que um relicário de vidro à prova de balas e de arrombamento, completamente transparente, cobrirá o corpo de Francisco, permitindo-nos não apenas ver, mas também tocar este relicário — destacou o frei.

Especialistas asseguram que a exposição prolongada não comprometerá a integridade dos restos mortais.

— A vitrine [de acrílico] é selada, portanto não há contato com o ar externo. Na verdade, permanece nas mesmas condições em que estaria no túmulo — afirmou o frei Cesáreo.

Nem mesmo a iluminação discreta da igreja representa risco.

— A basílica não será iluminada como um estádio (…) porque não há nada de especial a ser feito; trata-se de um encontro com Francisco, não de um cenário de filme — concluiu.

A mobilização em Assis ocorre em um momento simbólico para a Itália. Em 4 de outubro, pela primeira vez em quase 50 anos, o Dia de São Francisco voltará a ser feriado nacional. O santo é padroeiro do país e inspirou o nome do Papa Francisco, que morreu em abril de 2025, aos 88 anos — o primeiro pontífice a adotar o nome do religioso de Assis.

Também na cidade, no Santuário da Despossessão, estão preservadas as relíquias de Carlo Acutis, adolescente italiano morto em 2006 e canonizado em setembro pelo papa Leão XIV.



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