Na semana passada, escrevi sobre a tragédia envolvendo a Cinelândia. Terra de Marlboro, assiste-se a assaltos à luz do dia. Funcionários das já poucas empresas da região saem correndo rumo ao metrô. Parece gincana do Faustão. Blocos de carnaval vão desviar a rota para não passarem pela nova via-crúcis do Rio de Janeiro.
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Ainda cedinho na sexta passada, o vereador Carlo Caiado, presidente da Câmara, entrou em contato com a coluna para explicar os esforços (para solucionar o problema da Cinelândia). No mesmo dia, foi feita mais uma reunião com o governo, responsável pela segurança não só dali, mas de todo o estado. “A Força Municipal irá vistoriar essa e outras áreas da cidade”, acrescentou.
Leitores e mais leitores chamaram a atenção para o fato de que me esqueci, ou não expus, o mais trágico: há um batalhão da PM na área, o que deixa o enredo ainda pior. É inacreditável mesmo. “Daqui a pouco vão ter que botar cancela ou grade na praça”, escutei de um leitor. Tomara que não.
No centro do Rio, existe uma viela tão pequena que, em cerca de 50 passos, mesmo tropeçando, você atravessa de um lado ao outro. São apenas 28 metros, mas o Beco das Cancelas carrega uma história que nos leva direto ao século XVIII.
Na época do Brasil Colônia, cancelas foram instaladas nas duas extremidades da passagem. A função? Controlar a circulação durante a noite. Registros históricos indicam que a medida visava, sobretudo, impedir o trânsito de pessoas escravizadas naquele trecho. Há também quem defenda que as estruturas ajudavam a proteger a parte considerada mais nobre da cidade. Bem, a prática continua vivíssima.
Se você ficasse doente no início do século XIX, não havia pronto-socorro, plano de saúde ou ambulância. Em muitos casos, o atendimento acontecia na rua. E não era só no Rio de Janeiro. Cenas parecidas eram comuns em Salvador, São Paulo, Porto Alegre ou Ouro Preto.
A medicina do período misturava ciência, tradição e espiritualidade. Havia a crença de que doenças poderiam ser provocadas por maus espíritos ou desequilíbrios internos, tratados com sangrias, emplastros e aplicações diversas. Muitos dos que exerciam esses ofícios eram barbeiros-cirurgiões — profissionais que cortavam cabelo, faziam a barba e realizavam procedimentos como extrações dentárias e sangrias.
Até um rei fugiu de bandidos no Centro
Inaugurado em abril de 1965 pelo então governador Carlos Lacerda, o “Banerjão” abriu ao público ainda incompleto: apenas o térreo e a agência do Banco do Estado da Guanabara funcionavam; os demais andares seguiam em obras. Após a fusão dos estados, o banco virou Banco do Estado do Rio de Janeiro, o Banerj.
Em outubro de 1967, Roberto Carlos protagonizou uma das cenas mais ousadas do filme “Roberto Carlos em ritmo de aventura”: ele desce o edifício preso a um guindaste. Não teve um que não se assustasse. O longa foi criado para divulgar o disco homônimo e funcionou. Vendeu muito.
A produção era futurista para a época: teve helicóptero passando por túnel em Botafogo e até tentativa de sequestrar o cantor para criar uma “versão tecnológica” dele.
Depois de anos de abandono, o edifício ganhou novo fôlego: desde 2021, é sede da Assembleia Legislativa do Rio. Ainda bem que não vimos mais nenhum Rei tentando fugir do prédio. Ainda.