Elas já cortam o céu, pousam, exploram, erram caminhos e aprendem a viver na floresta. Um mês após devolver às araras-canindés (Ara ararauna) o direito de voar sobre o Rio depois de mais de 200 anos, o projeto de reintrodução no Parque Nacional da Tijuca entra agora em sua nova fase, a mais longa e decisiva. Não é mais sobre soltar. É sobre permanecer. Nos próximos meses, novas aves devem chegar para a aclimatação, período em que vivem em recintos dentro da própria mata para se adaptar ao ambiente, fortalecer o voo, reconhecer frutos nativos e reduzir o contato humano, antes de ganharem o céu em definitivo. A ampliação do grupo pioneiro vai testar, na prática, se uma floresta cercada pela cidade ainda consegue sustentar uma espécie que desapareceu da paisagem carioca há mais de dois séculos.
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O avanço das araras ocorre em paralelo a outras frentes de refaunação no parque. Ainda este ano, o projeto prevê o reforço populacional dos macacos bugios, espécie-chave da Mata Atlântica, com a introdução de novos indivíduos para ampliar a diversidade genética e a resiliência da população já existente. A estratégia indica que o retorno das aves faz parte de um plano mais amplo de reconstrução ecológica da floresta urbana.
Araras, bugios e o renascimento da maior floresta urbana do mundo
Fotogaleria mostra o retorno de animais desaparecidos da Mata Atlântica carioca
A reintrodução das araras-canindés na Floresta da Tijuca avança agora para um segundo capítulo. Depois da soltura das três primeiras fêmeas — Fernanda, Fátima e Sueli —, o projeto coordenado pela ONG Refauna, com apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), inicia uma etapa de expansão e consolidação. Entre quatro e seis novas aves devem chegar ao parque nos próximos meses para repetir o protocolo de aclimatação, com previsão de nova soltura ainda em 2026.
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Entre elas está Selton, macho que integrou o primeiro grupo, mas ficou fora da soltura inicial por estar em período de troca de penas. As primeiras araras-canindés resgatadas para o projeto foram retiradas de cativeiros irregulares ou apreendidas em operações de combate ao tráfico de animais silvestres e, depois, reabilitadas no Parque Três Pescadores, em Aparecida do Norte, no interior de São Paulo. A expectativa é que, com um grupo maior, as aves fortaleçam laços sociais, ampliem a permanência na área de soltura e avancem para o próximo passo: a reprodução em vida livre.
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Enquanto isso, as três pioneiras seguem sob monitoramento constante — feito por pesquisadores e também por moradores da região. Relatos, fotos e vídeos enviados à equipe do Refauna e ao aplicativo SISS-Geo, da Fiocruz, ajudam a mapear deslocamentos e comportamentos, sem divulgação dos pontos exatos de avistamento, como medida de segurança.
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À frente da gestão do Parque Nacional da Tijuca, Viviane Lasmar, chefe da unidade e analista ambiental do ICMBio, afirma que a reintrodução das araras-canindés representa muito mais do que um novo elemento no céu carioca.
— O projeto simboliza o retorno das araras ao céu do Rio, uma cidade reconhecida pela Unesco como patrimônio cultural mundial entre o mar e a montanha. Receber essa iniciativa dentro do parque demonstra que, mesmo sob intensa pressão urbana, a floresta permanece íntegra e capaz de oferecer alimento, abrigo, água e condições para que essas aves tentem estabelecer uma população viável — afirma.
Segundo Viviane, a soltura marca apenas o início de uma trajetória contínua de acompanhamento e adaptação:
— É animador constatar que uma floresta urbana ainda pode ser lar de espécies tão emblemáticas e essenciais para o funcionamento dos ecossistemas. Esse trabalho começou com as cutias, seguiu com os bugios e os jabutis-tinga e agora chega às araras. Todas essas espécies seguem vivendo no parque, o que indica uma mudança profunda na relação da cidade com sua biodiversidade.
Ela destaca ainda que o projeto responde a um desafio global: a defaunação, processo de perda acelerada de espécies animais.
— As araras exercem funções ecológicas únicas. Pela força do bico e pela capacidade de voo, dispersam grandes sementes a longas distâncias e contribuem para a regeneração da Mata Atlântica. Além disso, a iniciativa consolida um modelo que pode inspirar políticas públicas, ao mostrar que é possível restaurar processos ecológicos mesmo em áreas sob forte pressão urbana. Todo esse trabalho foi precedido por anos de cuidados sanitários, com exames rigorosos para garantir que as aves estivessem livres de patógenos antes de entrarem no parque — completa.
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Para a vice-presidente do Refauna, Joana Macedo, a reintrodução de uma espécie exige um percurso técnico cuidadoso, que começa muito antes da soltura.
— É preciso estudar a ocorrência histórica, entender por que a espécie desapareceu, avaliar se o habitat ainda oferece condições de sustentar uma população viável e mapear os riscos — explica.
No caso das araras-canindés, a principal referência histórica da presença da espécie no Rio de Janeiro está em um livro do viajante e pastor francês Jean de Léry, que registra a ocorrência dessas aves no entorno da Baía de Guanabara em meados do século XVI.
Segundo Joana, o desafio atual é equilibrar a adaptação das aves às particularidades de uma floresta cercada por bairros densamente povoados.
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— Quando as araras deixam o recinto e passam a viver em liberdade, começam a tomar suas próprias decisões. Elas ampliaram rapidamente suas áreas de uso, exploraram o entorno do parque e demonstraram grande capacidade de voo. Isso é positivo, mas exige reforçar comportamentos naturais, como buscar alimento sozinhas e evitar a aproximação humana — afirma.
Esse acompanhamento só é possível graças à ciência cidadã, que envolve moradores, observadores de aves e visitantes no monitoramento.
— As araras se deslocam por longas distâncias, muitas vezes fora do parque. Foram os relatos das comunidades do entorno do Parque Nacional da Tijuca que nos permitiram acompanhar, quase em tempo real, os deslocamentos de Fernanda, Sueli e Fátima, aumentando a eficiência das decisões e a segurança das aves — diz.
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A orientação ao público é clara: não alimentar, não tentar atrair, não tocar e não interagir. Em situações de risco, o correto é acionar o Refauna ou os órgãos ambientais.
— Toda aproximação mediada por comida ensina a arara a se aproximar de pessoas, o que pode colocá-la em perigo. Conviver com a fauna exige respeito à distância — alerta.
A chegada das araras integra uma estratégia mais ampla de refaunação da Mata Atlântica carioca. Além das novas solturas previstas para 2026 e do reforço populacional dos macacos bugios ainda este ano, o plano inclui monitoramento contínuo, participação comunitária e avaliação constante dos indicadores ecológicos.
— A refaunação funciona como a reconstrução de um quebra-cabeça ecológico. Bugios, araras, cutias e jabutis desempenham papéis diferentes e complementares. Quando essas espécies voltam, não é só o animal que retorna, são as interações que sustentam a floresta — resume Joana.
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Viviane reforça que o futuro do projeto depende, agora, menos da biologia e mais do comportamento humano.
— A cidade precisa assumir um novo papel. Deixar para trás a cultura da caça, da domesticação e da posse de animais silvestres e fortalecer uma rede de guardiões da floresta. Manter as Unidades de Conservação protegidas e respeitadas é essencial para que esse voo não seja interrompido — conclui.
A expectativa é que, ao longo dos próximos cinco anos, cerca de 50 araras-canindés sejam reintroduzidas na Floresta da Tijuca, formando uma população viável e em expansão. Se os resultados se confirmarem, o parque pode se consolidar como referência internacional em refaunação urbana, em um modelo que combina ciência, gestão ambiental e envolvimento direto da sociedade.