O uso de arma de fogo em agressões contra mulheres aumenta em até 85% a chance de morte da vítima em comparação com outros meios de agressão. A constatação é da 5ª edição da pesquisa “Pela Vida das Mulheres”, do Instituto Sou da Paz. De acordo com o levantamento, armas de fogo foram utilizadas em 47% dos homicídios femininos registrados no país em 2024 e aparecem em apenas 1,3% das agressões que não resultam em morte.
O estudo também revela um descompasso na queda dos homicídios no país. Enquanto os assassinatos de homens recuaram 15% entre 2020 e 2024, a redução entre as mulheres foi de 5%. No mesmo período, os crimes classificados especificamente como feminicídios cresceram 10%. O termo é usado para descrever atos motivados por ódio, desprezo ou discriminação de gênero.
“Essa diferença de letalidade dos casos com e sem uso de arma de fogo evidencia que controlar esse acesso é uma política preventiva da violência contra mulheres e que apreender cautelarmente as armas de pessoas acusadas de agressão é uma medida protetiva fundamental”, afirma Carolina Ricardo, diretora executiva do Sou da Paz.
O estudo também destaca desigualdades raciais nas mortes violentas de mulheres. A taxa de homicídios de mulheres negras é de 4,0 por 100 mil habitantes, enquanto entre não negras é de 2,4. Quando o foco recai sobre os casos envolvendo armas de fogo, a disparidade permanece: a taxa entre mulheres negras é de 2,04 por 100 mil habitantes, mais que o dobro da registrada entre mulheres não negras, de 0,93.
No Nordeste, essa desigualdade atinge seu ponto mais alto: a mortalidade por arma de fogo é 3,2 vezes maior entre mulheres negras. A região também concentra 38% dos homicídios femininos do país e registra uma das maiores proporções de mortes com esse tipo de armamento. Em 2024, 62% das mulheres assassinadas no Nordeste foram mortas com armas de fogo.
Entre os estados, o Ceará lidera a proporção de homicídios femininos cometidos com armas de fogo: 78% das mortes ocorreram dessa forma. Já a região Norte concentra a maior parte da violência letal contra mulheres indígenas, respondendo por 77% das 65 mortes registradas no país em 2024. Nesses casos, quando há uso de arma de fogo, cerca de 33% dos crimes ocorrem dentro da residência.
A maioria das vítimas (68%), aponta o estudo, está na fase jovem ou adulta, entre 18 e 44 anos. Nos casos de violência armada, a incidência é maior entre mulheres de 18 a 29 anos, com pico entre 18 e 24.
O local dos crimes também varia conforme o perfil das vítimas. Entre mulheres brancas, a residência é o principal cenário das mortes, respondendo por 46% dos casos. Já entre mulheres negras, a violência se distribui de forma mais equilibrada entre diferentes espaços, com 33% das mortes ocorrendo em vias públicas — proporção que chega a 45% nos casos envolvendo armas de fogo.
Para o instituto, além do fortalecimento do controle de armas, também se mostra necessária a instalação de equipamentos da rede de proteção diretamente nos territórios onde vivem as mulheres. Esses serviços incluem desde delegacias especializadas até centros de acolhimento e outras estruturas voltadas ao atendimento de vítimas de violência.