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As peças, pessoas e PDFs falsos que enganaram a indústria da aviação


De seu escritório em casa, em uma tranquila vila inglesa nos arredores de Londres, Jose Alejandro Zamora Yrala passou anos vendendo 60.000 componentes de motores a jato com documentação falsificada que se espalhou por todos os cantos da indústria global da aviação.

Trabalhando com um designer gráfico espanhol e um funcionário da TAP Portugal, o DJ de meio período adulterava certificados em PDF em seu computador e enganou a indústria da aviação — obcecada por segurança — ao longo de cinco anos, segundo documentos judiciais.

O escândalo levou a uma busca mundial pelos componentes falsificados nos aviões mais amplamente utilizados da Airbus e da Boeing e causou £ 40 milhões (US$ 54 milhões ou cerca de R$ 280 milhões ) em prejuízos.

Para Zamora Yrala, de 38 anos, a farsa terminou na última segunda-feira no Tribunal da Coroa de Southwark, em Londres, com uma sentença de quatro anos e oito meses de prisão por comércio fraudulento. O juiz responsável pelo caso, Simon Picken, classificou as ações de Yrala como “no mínimo imprudentes e totalmente injustificáveis”.

José Alejandro Zamora Yrala, diretor da AOG Technics, em frente ao Tribunal da Coroa de Southwark, em Londres, onde recebeu uma uma sentença de quatro anos e oito meses de prisão por comércio fraudulento — Foto: Chris J. Ratcliffe/Bloomberg
José Alejandro Zamora Yrala, diretor da AOG Technics, em frente ao Tribunal da Coroa de Southwark, em Londres, onde recebeu uma uma sentença de quatro anos e oito meses de prisão por comércio fraudulento — Foto: Chris J. Ratcliffe/Bloomberg

Vestido com um terno azul-marinho de três peças, Zamora Yrala permaneceu no fundo do tribunal, atrás de uma parede de vidro, e falou apenas para confirmar seu nome no início da audiência. Depois que o juiz leu sua sentença de prisão, ele saiu por uma porta lateral carregando uma bolsa já preparada, com um camburão aguardando do lado de fora.

Documentos divulgados pelos promotores no dia da sentença traçam o perfil de um homem que buscava dar à sua empresa, AOG Technics, uma aparência de respeitabilidade. Em seu site — agora excluído —, a AOG afirmava possuir armazéns no Reino Unido, em Cingapura, Frankfurt e Miami, descrevendo-se como uma “fornecedora global líder de suporte a aeronaves”. Uma organização de garantia de qualidade endossada pela Administração Federal de Aviação dos EUA havia acreditado as práticas da AOG.

Na realidade, a AOG era uma operação improvisada administrada por Zamora Yrala a partir de sua casa, com a ajuda de sua ex-esposa, do irmão dela e da babá da família, segundo os documentos. Embora os clientes recebessem e-mails assinados por nomes como Michael Klein, gerente de vendas, e David Stevens, diretor de qualidade, nenhum desses indivíduos foi identificado na folha de pagamento, o que coloca em dúvida até mesmo sua existência, de acordo com advogados do Serious Fraud Office do Reino Unido.

A Bloomberg News noticiou pela primeira vez as práticas da AOG, incluindo os possíveis funcionários fictícios, em 2023. No fim daquele ano, as autoridades prenderam Zamora Yrala no sofisticado subúrbio londrino de Virginia Water e realizaram uma busca na propriedade.

Os investigadores recuperaram o histórico de buscas em seu iPhone, que incluía consultas sobre como ocultar edições em PDFs, além de termos como “empresa de aviação falsificando certificados de peças” e “empresa de aviação dissolvida após descoberta de venda de peças defeituosas”, segundo a acusação.

Pânico na indústria da aviação

Os advogados de defesa afirmaram que Zamora Yrala não tinha consciência das consequências de seus atos. Ainda assim, a revelação das peças falsas da AOG lançou a indústria da aviação em um verdadeiro frenesi, forçando empresas a localizar lâminas de turbina, arruelas e selos potencialmente perigosos em suas frotas. E, dada a natureza global do setor, os componentes acabaram espalhados por toda parte, dos Estados Unidos à Etiópia e à Austrália.

Companhias aéreas como a American Airlines, a Delta Airlines e a Ryanair encontraram peças vendidas pela AOG em suas frotas, o que as obrigou a realizar reparos complexos e caros. Ethiopian Airlines, EasyJet e Jet2 também foram mencionadas nos documentos dos promotores.

Peças individuais que são substituídas quando um jato passa por manutenção possuem seu próprio histórico cuidadosamente documentado. Conjuntos de documentos contam a história de inspeções, revisões e indicam se a peça ainda pode ser utilizada com segurança.

Entre 2019 e 2023, Zamora Yrala ganhou quase £ 7 milhões (US$ 9,5 milhões ou R$ 49 milhões) vendendo componentes de motores fabricados, segundo advogados do Serious Fraud Office (SFO). Ele fundou a AOG em 2015, em Hove, uma tranquila cidade litorânea no sul da Inglaterra. As operações comerciais cresceram significativamente a partir de 2019, com Zamora Yrala como único diretor e acionista da empresa.

No início, Zamora Yrala contou com ajuda interna de um técnico que trabalhava na área de logística da subsidiária de manutenção da TAP Portugal, que lhe enviou cerca de 140 cópias em PDF de certificados autênticos de revisão de aeronavegabilidade. Zamora Yrala alterava alguns detalhes e, em seguida, enviava os certificados aos clientes junto com peças duvidosas, segundo os documentos dos advogados.

Procurada pela Bloomberg, a TAP não respondeu a um pedido de comentário.

Depois, Zamora Yrala contratou um designer gráfico espanhol para ajudá-lo a criar seus próprios certificados, enviando-lhe PDFs editáveis de documentos da Safran SA, de acordo com os advogados. Os documentos falsificados foram encontrados no computador de Zamora Yrala.

A Bloomberg noticiou pela primeira vez a descoberta da documentação falsificada quando engenheiros da TAP que trabalhavam em uma turbina CFM56 constataram que uma peça de reposição — um amortecedor destinado a reduzir vibrações — apresentava sinais visíveis de desgaste, embora a documentação que a acompanhava identificasse o componente como recém-saído da linha de produção.

Venda de produtos de luxo, autênticos ou não?

Depois de descobrir as peças suspeitas, a TAP Portugal entrou em contato com Zamora Yrala em junho de 2023 e o confrontou com a documentação questionável. Ele pediu desculpas pela “confusão”. No dia seguinte, um homem chamado David Stevens — descrito como diretor de qualidade da AOG — afirmou que sua equipe realizaria uma investigação interna, segundo os advogados.

A AOG solicitou que as peças fossem devolvidas, o que a TAP recusou, optando em vez disso por alertar a Safran SA, que fabrica motores CFM em parceria com a General Electric. A Safran informou à TAP que os documentos haviam sido falsificados e que o signatário não era funcionário da empresa. A partir dessa descoberta inicial, o escândalo se transformou em uma crise global.

Após o caso da AOG Technics, fabricantes do setor aeroespacial passaram a adotar medidas para impedir que peças não autorizadas entrem no sistema, incluindo a criação da Aviation Supply Chain Integrity Coalition, que reúne fabricantes como a Boeing, a Airbus e a GE Aerospace, além de grandes companhias aéreas.

Em setembro, a coalizão informou que a Boeing desenvolveu uma versão digital e inviolável de um formulário que certifica a aeronavegabilidade das peças. A GE Aerospace também implementou uma ferramenta digital para verificar a identidade e a autoridade das pessoas que assinam certificados de aeronavegabilidade.

Após o encerramento da AOG Technics, Zamora Yrala criou um site chamado White Collar Project. Nele, divulgava vídeos no YouTube de seus sets de DJ em vinil com cerca de uma hora de duração e vendia gravuras por £ 8.731 (US$ 11,7 mil ou R$ 61 mil), moletons por £ 145 (US$ 196 ou R$ 1.012) e camisetas Balenciaga por £ 952 (US$ 1.285 ou R$ 6.648).

Não está claro se estes produtos de luxo eram autênticos.



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