Eu amo o carnaval. Eu gosto da ideia de todo mundo parar tudo pra brincar, cantar e dançar num delírio coletivo. E num mesmo lugar estar o chefe, o motorista, a filha e a avó. Sim, o carnaval é democrático. A recuperação é que não é. Enquanto um jovem se recupera em um dia, a gente entra em coma. Por uma semana.
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Não sou uma foliã exemplar daquelas que nasceram no berço do samba, cresci no Centro-Oeste do país, onde no máximo havia bloquinhos nos clubes do bairro. Sempre fui foliã de trio elétrico. De uma época áurea da Bahia onde os trios de Moraes Moreira, Armandinho e Margareth Menezes se encontravam. Fui foliã raiz de tênis e short no meio da pipoca. Quis reviver ano passado essa sensação que me tomava a alma cada vez que eu cantava “eu voooou atrás do trio elétrico vou”. Foi lindo até meu joelho me lembrar que eu não ia poder ir muito longe. Porque a Bahia te engana. Depois de três caipirinhas de seriguela você se sente uma garota de 20. Pula abraçada, dá uma agachadinha no refrão, sobe a ladeira cantando até que a onda passa, o trio também e no dia seguinte você acha que tá com uma doença terminal.
É quando você se depara com um caminho sem volta e entende que, depois dos 40, você não vai mais “passar o dia”. Você vai fazer só um turno. Manhã, tarde ou noite. Você não vai mais simplesmente se hidratar, vai beber água o dia todo pra não desmaiar. E isso vale para os carnavais de todo o Brasil.
No Rio, por exemplo, não tem como ir a um bloco às seis da manhã e estar plena na Sapucaí à noite. O bloco é lindo mas é uma armadilha: você sai pra encontrar umas amigas animadas e quando vê já está há oito horas andando atrás de uma banda que decidiu que a dispersão é em outro município. Meu sangue não é compatível com banheiro químico.
Desfile das escolas de samba eu adoro! Você aplaude, se emociona e, se tudo der certo, volta pra casa com dignidade. Agora desfilar é outra modalidade. Olímpica. Eu já desfilei uma única vez. Ganhei uma fantasia, fiquei horas na concentração, mirei na Sabrina Sato e quando finalmente vesti a fantasia descobri que só meu rosto apareceria dentro da carta do baralho. Sim, me vesti de baralho. E depois mandaram a gente rodar pra “embaralhar as cartas”. Terminei a noite com labirintite. Muita humilhação.
Já tentei Olinda. Cidade linda, histórica e… vertical! Olinda é a prova de que a alegria brasileira não respeita a gravidade. Você sobe e desce tanta ladeira que no fim do dia descobre que não pulou carnaval, você fez o cardio da semana. Eu faria um ano de fisioterapia preventiva antes de encarar de novo o carnaval do Recife.
A real é que a minha idade não combina com minha melhor fantasia: a de inimiga do fim. Sou a pessoa que emenda. Emenda a pré que emenda no pós e se alguém propuser um café da manhã também emenda num mergulho. Pra conter os danos só visto essa fantasia no carnaval quando não aproveito pra descansar.
Descansar no carnaval é um ato revolucionário. A gente olha com preguiça pras amigas comprando roupa na Saara, mas quando Paolla Oliveira entra na avenida a gente pensa que está perdendo tempo de vida. Eu tô sempre entre tomar um drink e um relaxante muscular. Esse ano vou fugir. Minha filha quer se jogar no bloco com 16 anos e só de imaginar o que já fiz sem minha mãe saber no carnaval, inventei uma viagem em família. Do nada.
Pule um carnaval que caiba no seu joelho, no seu fígado e na sua dignidade. Ou descanse fingindo maturidade. Ainda bem que pra onde eu vou não tem Paolla pra me lembrar a beleza e a alegria que é ter saúde pra viver muitos carnavais.