No fim do século XVIII, as nações bem-sucedidas no mundo eram basicamente monarquias. O experimento democrático inaugurado nos Estados Unidos com a independência em 1776 e a Constituição em 1789 foi, sob qualquer aspecto, revolucionário. De lá para cá, a ideia de uma república democrática se espalhou pelo mundo. É irônico, diante disso, que os americanos estejam prestes a comemorar os 250 anos de sua independência justamente numa época em que a democracia sofre forte erosão. Os efeitos negativos do primeiro ano do segundo governo de Donald Trump têm sido constatados nas principais avaliações objetivas de democracia e liberdade publicadas nos últimos dias.
Para a Freedom House, com sede em Washington, Estados Unidos, Bulgária e Itália registraram os maiores declínios no ano de 2025 entre os países classificados como livres. Para o V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, o segundo governo Trump é marcado por rápida e agressiva concentração de poderes na Presidência. “A velocidade com que a democracia americana tem sido desmantelada não tem precedentes na História moderna”, afirma o relatório publicado em março, cuja capa estampa uma bandeira americana com a sigla SOS.
A análise da Freedom House descreve a escalada da disfunção legislativa e do domínio do Executivo. A situação é pior com o Congresso dominado por parlamentares republicanos temerosos de perder apoio de Trump. “A crescente pressão sobre a capacidade da população de exercer a liberdade de expressão e as ações do novo governo para enfraquecer as salvaguardas anticorrupção contribuíram para a mudança negativa”, afirma a Freedom House em sua análise de 195 países. Trump acabou por acelerar a tendência já em curso mesmo antes de sua volta ao poder. Desde 2005, os Estados Unidos perderam 12 pontos numa escala de 100, mais que qualquer outro país classificado como livre no mesmo período, exceto Nauru e Bulgária.
No ranking do V-Dem, os Estados Unidos caíram do 20º para o 51º lugar entre 179 nações. A leitura do primeiro ano do governo Trump guarda pontos em comum com a feita pela Freedom House. Para o V-Dem, a perda de vigor da democracia tem sido pontuada por excessos do Executivo, ataques à imprensa, às universidades e a quem pensa diferente do governo. Ao descrever a erosão democrática, o relatório afirma: “Talvez o exemplo mais ilustrativo seja a própria declaração do presidente de que o único limite a seu poder é ‘sua própria moral’ e de que apenas os tribunais — e não o Congresso — têm poder para restringir sua agenda doméstica ‘em certas circunstâncias’ ”.
O nível democrático nos Estados Unidos hoje, diz o V-Dem, equivale ao de 1965, ano marcado pela lei que proibiu a discriminação racial nas eleições, assinada pelo presidente Lyndon Johnson na presença de Martin Luther King Jr. Mas isso não significa que os Estados Unidos tenham voltado àquela era. “As falhas que afetavam a democracia americana durante a era do Movimento por Direitos Civis diziam respeito principalmente a dispositivos legais sobre o direito ao voto e outros direitos políticos ou civis. As graves deficiências criadas na administração Trump são profundamente diferentes”, afirma o relatório. No ano que marca um quarto de milênio desde a independência, a situação é dramática para um país que já foi sinônimo de democracia.