Os Estados Unidos fretaram, em janeiro deste ano, ao menos dois voos privados para deportar palestinos detidos pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) para a Cisjordânia. As aeronaves utilizadas pertencem ao magnata imobiliário Gil Dezer, amigo do presidente Donald Trump e seu parceiro em projetos imobiliários, segundo investigação conjunta do jornal britânico The Guardian e do portal palestino-israelense +972 Magazine.
De acordo com os veículos, os voos integram uma rede pouco transparente de aeronaves privadas empregadas na campanha de deportações em massa intensificada pela Casa Branca desde o início do atual governo republicano. Registros analisados pela organização Human Rights First (HRF), que monitora operações de deportação aérea, indicam que o avião de Dezer foi usado repetidamente pelo governo americano.
Segundo informações divulgadas pelo jornal El País, o primeiro voo partiu em 20 de janeiro de um aeroporto próximo a um centro de deportação em Phoenix, no Arizona, com oito palestinos algemados a bordo. A aeronave fez escalas na Irlanda e na Bulgária antes de pousar, no dia seguinte, em Tel Aviv. De lá, os deportados foram levados a um posto de controle militar nos arredores de Ni’lin, na Cisjordânia, onde foram libertos após terem documentos pessoais e celulares confiscados. Um segundo voo, com número não divulgado de palestinos, aterrissou em Tel Aviv dias depois, aparentemente com o mesmo destino.
As operações chamaram atenção após a divulgação, pelo jornal israelense Haaretz, de uma foto mostrando homens com roupas de presidiários, de cabeça baixa, descendo de um jato privado sob vigilância de agentes de segurança à paisana. Moradores da região onde os palestinos foram deixados relataram surpresa.
— O Exército israelense normalmente não liberta detidos naquele posto de controle — afirmou Mohamed Kanaan, professor que acolheu o grupo em sua casa por horas até que conseguissem contatar suas famílias.
Segundo Kanaan, algumas famílias acreditavam que os homens estavam desaparecidos após longos períodos de detenção sem comunicação.
— Uma mãe começou a gritar e a chorar ao telefone — relatou.
A investigação aponta que vários dos deportados tinham vínculos profundos com os Estados Unidos. Alguns possuíam green card, documento que garante residência permanente legal, viviam há anos no país ou haviam constituído famílias com filhos que permaneceram em solo americano.
— Tudo o que sei e vivi está nos Estados Unidos — disse Maher Awad, de 24 anos, que passou quase uma década estudando e trabalhando em Michigan. Ele foi deportado sem conhecer o filho recém-nascido, que nasceu enquanto ele estava detido pelo ICE. Awad hoje vive em Ramun, perto de Ramala, de onde saiu aos 15 anos.
Outro deportado, Sameer Zeidan, de 47 anos, trabalhava como comerciante na Luisiana. Sua esposa e seus cinco filhos, todos cidadãos americanos, permaneceram nos EUA.
— Toda a família dele está lá — lamentou um tio, que vive próximo a Ramala.
O voo que transportou Awad e Zeidan foi realizado em um jato Gulfstream GIV, avaliado em mais de 20 milhões de euros. Dezer, proprietário da aeronave, é herdeiro de um império imobiliário na Flórida, financiador das campanhas de Trump, com doações superiores a um milhão de euros, e integrante de uma associação que arrecada fundos para o Exército de Israel. Seu pai possui cidadania israelense.
Ao The Guardian, Dezer afirmou desconhecer o uso de sua aeronave, frequentemente descrita por ele como seu “brinquedo preferido”, quando fretada pela empresa Journey Aviation, sediada na Flórida e contratada com frequência pelo governo americano.
Em seu site oficial, o ICE afirma realizar “missões fretadas de alto risco” para deportar pessoas que não podem ser transportadas por companhias aéreas comerciais, seja pelo destino ou por razões de segurança.
O custo dessas operações varia entre 6 mil e 22 mil euros por hora. Especialistas ouvidos pelo The Guardian estimam que um voo de ida e volta entre os EUA e Israel pode custar cerca de 400 mil euros, aproximadamente 50 mil euros por deportado no primeiro voo.
Dados da Human Rights First indicam que o mesmo avião foi usado desde outubro em pelo menos outras quatro deportações para países como Quênia, Libéria, Guiné e Essuatíni.
A organização acusa o governo americano de promover uma agenda de deportações “sem precedentes”, com métodos “legalmente questionáveis e indiscutivelmente cruéis”. Para Savi Arvey, diretora de pesquisa da HRF, trata-se de um sistema opaco que ignora o devido processo legal, separa famílias e opera sem transparência.
Especialistas afirmam não haver precedentes conhecidos para voos desse tipo. O advogado israelense de direitos humanos Michael Sfard disse ao El País que nem mesmo em casos humanitários é comum permitir o pouso no aeroporto Ben-Gurion antes de seguir para a Cisjordânia. Segundo ele, a operação sugere um interesse específico, ou de Israel, ou para atender a demandas do governo Trump. O governo israelense não comentou o caso.
Após o primeiro voo, o Haaretz informou que os EUA solicitaram formalmente a deportação dos palestinos, aprovada pela agência de inteligência israelense Shin Bet após avaliação de segurança.
Awad foi preso após ligar para denunciar um roubo em sua residência. A detenção estaria relacionada a uma acusação anterior de violência doméstica, posteriormente retirada, segundo ele e sua companheira. Ao deixar a delegacia, foi entregue a agentes do ICE. Já Zeidan perdeu o direito à residência por não renová-la após cumprir pena de prisão há cerca de dez anos.
Segundo a +972 Magazine, a ausência de reconhecimento do Estado palestino pelos EUA faz com que agentes migratórios classifiquem palestinos como israelenses, jordanianos ou cidadãos de países por onde passaram antes de chegar aos EUA, o que dificulta deportações, já que esses governos se recusam a recebê-los.
No passado, esse impasse levou o Departamento de Segurança Interna (DHS) a prolongar detenções. Agora, a postura parece ter mudado.
— Se um juiz determinar que um imigrante ilegal não tem direito de permanecer neste país, nós o expulsaremos. Ponto — afirmou um porta-voz do DHS.