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No tênis, as derrotas que ensinam o que o futebol não aprende


Tem uma cena curiosa acontecendo no esporte brasileiro e ela não está no futebol. João Fonseca, aos 19 anos, perdeu três vezes seguidas em Masters nas últimas semanas, para os três melhores jogadores do mundo: Jannik Sinner (6/7, 6/7, nas oitavas de Indian Wells), Carlos Alcaraz (4/6, 4/6), na 2ª fase de Miami) e, agora, nas quartas de final do Masters 1000 de Monte Carlo, para Alexander Zverev (5/7, 7/6, 3/6). E, ainda assim, saiu maior de cada uma dessas derrotas.

Não é força de expressão. Quem acompanhou os jogos viu partidas mais equilibradas do que o esperado, momentos de domínio, oscilações naturais de quem está começando a frequentar esse nível. Não há vexame, não há frustração desproporcional, não há cobrança fora do tom. Há, sobretudo, uma leitura rara no Brasil: a de que perder também faz parte do processo. Que, diante de adversários desse tamanho, competir já é sinal de crescimento. E que evolução, em esporte, raramente vem em linha reta.

Talvez seja cedo para cravar qualquer mudança cultural mais profunda, mas o fato é que o torcedor brasileiro, ao menos o que acompanha mais de perto o tênis, parece disposto a ter com João Fonseca uma paciência que quase nunca teve com seus ídolos, em qualquer esporte, e que não ousa cogitar com o seu time de futebol. E isso diz bastante não só sobre o momento do jogador, mas sobre o contraste com o esporte mais popular do país.

Porque, no mesmo Brasil em que se celebra derrotas construtivas nas quadras, demitem-se técnicos em série. Parece pouco relacionável, e de fato é, mas como escreveu o Carlos Eduardo Mansur, ao analisar a marca recente de 10 demissões em 10 rodadas, quando os números chegam a esse ponto, o problema deixa de ser individual e passa a ser estrutural. A tentação de justificar cada caso isoladamente (e sempre há argumentos para isso) acaba escondendo o mais evidente: o sistema inteiro está montado para não funcionar.

E é esse o ponto de contato mais interessante entre os dois universos. O João Fonseca está, na prática, no início da carreira em alto nível. É um jogador que já era promissor antes de se profissionalizar, que carrega expectativa desde cedo, mas que ainda vive o ciclo mais básico de qualquer atleta em formação: alterna bons e maus resultados, vence torneios menores, cai cedo em outros, faz grandes jogos e partidas abaixo. Nada fora do roteiro. Nada que não seja esperado. E, ainda assim, recebe tempo.

No futebol brasileiro, o tempo virou artigo de luxo. Tudo já precisa nascer vencedor. Não há tempo nem para ser promissor. O Flamengo interrompe um trabalho — o do multicampeão Filipe Luís — que já tinha dado sinais claros de solidez porque continuar ganhando é difícil e exige sustentação; o São Paulo troca de técnico mesmo com resultados razoáveis, incapaz de sustentar uma ideia por mais de algumas semanas, mesmo sob contexto de crise; e o Dorival Júnior, que recentemente levou um Corinthians desacreditado a títulos relevantes, não resiste a um começo irregular de temporada. Os contextos variam, as justificativas também, mas o padrão se repete: ninguém tem tempo para errar, ajustar e continuar.

No tênis, errar faz parte do ponto. Aliás, faz parte de quase todos os pontos. O jogo se constrói na repetição, na troca de bolas, na paciência de permanecer vivo enquanto a oportunidade não aparece. No futebol brasileiro, a lógica é outra: a cada erro, reinicia-se tudo. Troca-se o técnico como se troca um saque perdido, sem perceber que o problema muitas vezes não está na execução, mas na forma como se pensa o jogo.

Há também um elemento histórico interessante. O maior ídolo recente do tênis brasileiro, Gustavo Kuerten, o Guga, surgiu de forma quase inesperada ao ganhar Roland Garros em 1997, e só anos depois, já no fim de 2000, se consolidou como número 1 do mundo em um fim de temporada. Mesmo ali, onde o auge veio cedo, a construção foi longa. João Fonseca faz o caminho inverso: chega cercado de expectativa antes de explodir, o que, em tese, aumentaria a pressão por resultados imediatos. Mas, curiosamente, o que se vê é o contrário: uma aceitação maior do processo, talvez até uma compreensão mais madura do que significa formar um grande jogador.

O futebol brasileiro, que já viveu num passado distante ciclos mais longos e consistentes, hoje parece incapaz de sustentar qualquer projeto que não entregue resposta imediata. E isso não é apenas uma questão de resultados, mas de responsabilidade. Como lembra o Mansur, o técnico acaba sendo o personagem mais visível e mais cobrado, enquanto quem decide, quem contrata e quem demite raramente assume o próprio erro. Demitir vira solução automática, quase reflexo, e não consequência de uma análise mais profunda.

No fim, o Brasil vive um pequeno paradoxo esportivo. Num ambiente em que seria mais natural a impaciência, como o do tênis (um esporte individual, em que a responsabilidade é toda do atleta, a comparação com os melhores é imediata e o resultado aparece sem filtro coletivo) começa a surgir uma leitura mais generosa do tempo e da evolução. No futebol, onde a experiência acumulada já deveria ter ensinado o valor da continuidade, seguimos presos à urgência permanente.

Talvez o João Fonseca ainda vá ganhar muito, ou talvez não ganhe tudo o que se espera. Mas, por enquanto, ele já oferece uma lição que vai além das quadras: a de que crescer exige tempo, e de que nem toda derrota é um fracasso. O futebol brasileiro, ao que parece, ainda prefere não escutar: qualquer revés é game, set e match.



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