
Este texto foi enviado na newsletter semanal O Crítico Antigourmet, em que Ian Oliver faz resenhas da gastronomia de São Paulo. Quer receber o conteúdo antes da publicação on-line? Clique aqui para se inscrever.
O Fasano é um microcosmo de São Paulo que decidiu parar no tempo. Não por incapacidade de avançar, mas por puro desinteresse em fazê-lo. O acordo implícito entre o restaurante e o público que o frequenta está claro aqui: ninguém quer ser surpreendido — desde que a “experiência” venha embrulhada em linho impecável.
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Esse conforto previsível, quase institucional, inevitavelmente se expressa na comida: logo de entrada, um dos piores steak tartares que já comi na vida. O serviço é até bonito, algo antiquado e conservador: o tartare é temperado na própria mesa por um garçom. Mas, por R$ 236, não passa de um filé mignon batido à exaustão, com aspecto de comida enlatada para gato, que faz o cliente lembrar dos arcanos de sua infância, na época em que não tinha dentes e precisava comer papinha de carne.
O filé mignon é a pior carne possível para fazer um tartare, pela sua notável ausência de sabor. Mas é o corte mais clássico e protocolar. E isso é o Fasano. A carne simplesmente desaparece na soma de temperos desarmônicos, em que predominam mostarda e alcaparras, mas também aparecem tabasco, conhaque, gema de ovo e o azeite mediano da própria marca Fasano, que nunca permitiriam que o tímido filé mignon se expressasse.
Steak tartare: “O serviço é até bonito, algo antiquado e conservador: o tartare é temperado na própria mesa por um garçom. Mas, por R$ 236, não passa de um filé mignon batido à exaustão””
Ian Oliver
A massa que pedi foi o tortelli de vitela (R$ 214). Ela é o retrato mais fiel da cozinha do Fasano: massa levemente passada, recheio deprimido de vitela, sem qualquer pungência ou personalidade mínima, embrulhados em um molho de parmesão pesado e um roti doce, flácido, em uma concepção quase medieval de sabor. Não há tensão ali, não há contraponto. É apenas o conforto previsível.
Tortelli de vitela: “Não há tensão, contraponto ou provocação. É apenas o conforto do excesso”
Ian Oliver
Não poderia ter terminado sem provar o famoso Tiramisù da casa (R$ 68). Enaltecido por críticos e público desde a década de 90, a sobremesa parece ter estacionado na época: montagem quase escultórica, inflada, com cacau e crocantes esbranquiçados de tão velhos, jogados por cima do doce. Em boca, o resultado é apenas pacato: falta contraste real, falta amargor que corte, falta café que apareça com alguma expressão. Há dulçor, leve amargor, diferenças de cremosidade e crocância, sim, há. Mas tudo sempre muito domesticado, arredondado, educado demais.
Tiramisù: “Enaltecido por críticos e público desde a década de 90, a sobremesa parece ter estacionado na época”
Ian Oliver
O Fasano é uma espécie de clube de uma elite paulistana que quer ser tratada como funcionário público em final de carreira: estabilidade, protocolo, nenhuma surpresa. O problema é que funcionário público em final de carreira pensaria duas vezes antes de pagar R$ 236 por uma papinha de filé mignon. Um lugar em que o foco está muito mais no pertencer do que no comer.
Todas as visitas do crítico são pagas pelo GLOBO e feitas sem qualquer aviso prévio.
FASANO
📍 Endereço: :Rua Vittorio Fasano, 88 – Jardins, São Paulo
🍴 Tipo de cozinha: italiana clássica
🍣 Especialidade: alta gastronomia tradicional
💲 Preços: steak tartare R$ 236; tortelli de vitela R$ 214; tiramisu R$ 68
🪑 Ambiente: Luxuoso, formal e conservador. Toalhas de linho impecáveis, talheres de prata, iluminação calculada e serviço antiquado.
👥 Público: Elite paulistana tradicional, executivos em almoços de negócios e clientes em busca de status e previsibilidade.
🏆 Destaques:
– O serviço de salão, clássico e teatral (como o preparo do tartare na mesa).
– A consistência da experiência para quem busca exatamente o que a casa se propõe a entregar: estabilidade.
⚠️ Pontos de atenção:
– Preços exorbitantes para uma entrega gastronômica que parou no tempo.
– Falta de tensão, contraponto e emoção nos pratos.
– Execução técnica falha em clássicos (carne batida demais no tartare, massa levemente passada).
📝 Avaliação: ⭐✰✰✰✰
Uma experiência decepcionante no prato, mascarada por um serviço de luxo. Para um restaurante com o peso histórico e os preços do Fasano, entregar uma comida “educada demais” e com falhas técnicas básicas é inaceitável. O ambiente e o serviço entregam o que prometem, mas a cozinha escolheu a complacência.
Classificação: Ruim ✰✰✰✰✰ | Satisfatório ⭐✰✰✰✰ | Bom ⭐⭐✰✰✰ | Muito bom ⭐⭐⭐✰✰ | Excelente ⭐⭐⭐⭐✰ | Excepcional ⭐⭐⭐⭐⭐
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