Continua extremamente grave o patamar alcançado pelo antissemitismo no Brasil, segundo os dados compilados pela Confederação Israelita do Brasil (Conib). Em 2022, as denúncias não passavam de 397. Depois do ataque terrorista do Hamas em 7 de outubro de 2023, houve um salto. O pico aconteceu em 2024, quando foram registrados 1.788 casos. No ano passado, houve queda para 989, mas isso não representa alívio, porque o total se manteve em nível inaceitavelmente alto, 150% acima de 2022.
O antissemitismo é uma forma de racismo, crime inafiançável e imprescritível. Infelizmente, a polícia e a Justiça não têm dado conta de identificar e punir os criminosos. Em contraste com outrora, quando a chaga se manifestava sobretudo na extrema direita, a nova vertente, sob o disfarce do “antissionismo”, encontrou abrigo na esquerda, onde conta com a vista grossa — quando não o beneplácito — do atual governo. Como era de esperar, o ódio e o preconceito contra judeus circula sem freios pelas redes sociais. “O crescimento observado entre 2022 e 2024 foi impulsionado principalmente pelo aumento das denúncias no ambiente digital”, diz o relatório da Conib. As próprias redes dão de ombros à dimensão e à gravidade da questão.
Os dados exibidos no relatório são eloquentes. Numa amostra de 1.427 judeus brasileiros ouvidos entre setembro de 2025 e janeiro deste ano, nada menos que 86% dizem que o problema tem se agravado desde 2023. Três em dez afirmam ter sido alvo direto ou testemunhado ataque nos 12 meses anteriores. Metade viu ou ouviu comentários antissemitas. Quase 60% viram manifestações antissemitas contra outros nas redes sociais.
Uma pesquisa feita pela AtlasIntel a pedido da StandWithUs Brasil em fevereiro mostrou a persistência entre os brasileiros dos estereótipos antissemitas mais abjetos: 1) para 28%, é legítimo desconfiar de judeus porque “são mais leais a Israel que ao Brasil”; 2) para 42%, é aceitável comparar o tratamento de Israel aos palestinos ao dos nazistas aos judeus; 3) para 29%, o povo judeu foi “responsável pela morte de Jesus”. Embora 70% dos brasileiros afirmem sentir-se à vontade em ter amigos judeus, entre os de esquerda o percentual cai para 50%. “O antissemitismo contemporâneo no Brasil se manifesta menos por hostilidade declarada e mais por uma combinação de desinformação histórica, permissividade diante de estereótipos antigos e baixo letramento sobre as formas que o ódio assume hoje”, diz o relatório.
O crescimento do antissemitismo é preocupante em todo o mundo. Ataques violentos têm ocorrido em lugares antes seguros para as comunidades judaicas, como Londres, Michigan, Toronto, Roterdã, Amsterdã ou Sydney. Diversas agressões são relatadas pela Conib, em especial em instituições de ensino. É especialmente chocante que, embora 64,4% considerem essencial ensinar o Holocausto nas escolas, 87,3% dos brasileiros jamais tenham participado de uma simples palestra sobre o tema. Tal ignorância é o terreno onde florescem o preconceito e o ódio.