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Troca de farpas com Lula e Brizola, ‘tratorada’ no Rio e menos de 1% dos votos


O então desconhecido Ronaldo Caiado se lançou na campanha para a Presidência da República, em 1989, como candidato da União Democrática Ruralista (UDR), instituição que ele mesmo tinha criado quatro anos antes. Médico e pecuarista, dono de fazendas em Goiás, herdeiro de uma longa linhagem de políticos e donos de terras no estado, o aspirante ao Palácio do Planalto começou a dar entrevistas sobre suas intenções no governo antes mesmo de escolher um partido. E, depois de se filiar ao antigo Partido Social Democrático (PSD), manteve-se como representante do setor agro. Tanto que decidiu fazer campanha no Rio liderando uma “tratorada”. Mas nada disso deu certo.

De lá pra cá, o político se afastou da vida pública durante alguns anos, mas retornou no fim da década de 1990. Elegeu-se deputado federal por cinco mandatos, foi senador e depois governador de Goiás. Nesta segunda-feira, aos 76 anos, ele se lançou outra vez candidato à Presidência, coincidentemente ou não, pelo novo Partido Social Democrático (PSD), fundado em 2011, por Gilberto Kassab.

Em 1989, Caiado não tinha chance de ser presidente, mas nem por isso deixou de brigar por votos. Sua estratégia consistia em atacar os candidatos à esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Leonel Brizola (PDT), que, naquela eleição, disputavam o segundo lugar, atrás de Fernando Collor (PRN). Nos debates na TV, ele se mostrava briguento e provocador. Criticava Brizola por ter se exilado fora do Brasil durante a ditadura militar e fustigava Lula acusando de corrupção a Prefeitura de São Paulo, na época dirigida pela então petista Luiza Erundina. Num debate da Rede Bandeirantes, ao repelir os ataques de Caiado, Lula desmereceu o rival dizendo: “Se você chegar a 1,5% (nas pesquisas), eu me dirijo a você”.

Manifestantes contrários arrancam faixa de trator da comitiva de Caiado — Foto: Carlos Ivan/Agência O GLOBO
Manifestantes contrários arrancam faixa de trator da comitiva de Caiado — Foto: Carlos Ivan/Agência O GLOBO

Num pleito com 22 candidatos, o pecuarista de Goiás não convenceu nem 1% do eleitorado a votar nele. Não faltou obstinação, mas, pelo menos no Rio, a tática do candidato não deixou boa impressão. “A primeira investida no Rio do líder ruralista e candidato Ronaldo Caiado foi um desastre”, informou uma reportagem do Jornal O GLOBO de 26 de outubro de 1989. De acordo com a matéria, para provar a tese de que as cidades dependem do campo, Caiado chegou à capital fluminense com um exército formado por “agro-boys” e “agro-girls”, que se encontrou, às 11h, na Via Dutra, próximo a Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e levou seis horas até chegar na Cinelândia, no Centro do Rio.

Eram cerca de 5 mil pessoas em 50 caminhões, 80 tratores e 30 ônibus, além de “carros de luxo”. Tinha até uma ovelha na comitiva. Após cinco horas numa caminhonete protegida por 12 policiais federais e 40 seguranças (alguns exibindo nos carros adesivos do grupo de extermínio Scuderie Le Cocq), Caiado chegou à Avenida Rio Branco dirigindo um trator Valmet. Além de gerar brigas com apoiadores de Lula e Brizola nas ruas, a “tratorada” do fazendeiro goiano provocou um engarrafamento colossal no Centro do Rio, bem na hora do rush. Segundo noticiou O GLOBO, o “caos” promovido levou à loucura cerca de 300 policiais responsáveis pelo trânsito e transformou a Cinelândia em uma “praça de guerra”.

Crítico de Caiado confronta motorista de trator no Rio — Foto: Carlos Ivan/Agência O GLOBO
Crítico de Caiado confronta motorista de trator no Rio — Foto: Carlos Ivan/Agência O GLOBO

Enquanto brizolistas e lulistas xingavam, vaiavam e até arrancavam faixas dos tratores, os seguranças particulares de Caiado distribuíam socos e cacetadas. Um deles, com a camisa do médico ruralista, segurou um militante rival e o atirou do outro lado da rua. “Vim aqui para pegar esses comunistas”, disse o grandalhão. No meio da confusão, jovens que desfilavam sobre os tratores largaram as bandeiras do candidato e buscaram refúgio dentro dos ônibus. Enquanto isso, Caiado mantinha o sorriso inabalável: “Estou na Cinelândia, e não na Brizolândia. As pessoas que fazem questão de criar tumulto são fanáticos do Aiatolá Khomeini”, disse ele, citando o então líder supremo do Irã.

A situação foi ficando mais tensa, até que, na Rua Augusto Severo, já na Glória, uma parte da carreata foi emboscada por cerca de 30 manifestantes contrários, que atiraram pedras nos tratores.

A tratorada de Caiado continuou avançando para a Zona Sul do Rio. Com isso, os motoristas levavam duas horas do Centro a Copacabana. O Aterro do Flamengo ficou totalmente engarrafado, segundo a reportagem do GLOBO. Mais tarde, “as avenidas Atlântica e Vieira Souto foram tomadas por homens e mulheres do campo. Botas ‘canolongo’ e jeans apertados contrastavam com as tangas de quem ficou na praia até o fim da tarde”. Entre uma vaia e outra, o candidato colheu demonstrações de simpatia das janelas dos prédios, até que seu desfile em solo carioca terminou na orla da Lagoa. “O Brasil tem que ser independente do marxismo e dependente apenas do Brasil”, disse o candidato.

Caiado discute com petista Luis Eduardo Greenhalgh, então vice-prefeito de São Paulo, após debate — Foto: Antonio Moura/Agência O GLOBO
Caiado discute com petista Luis Eduardo Greenhalgh, então vice-prefeito de São Paulo, após debate — Foto: Antonio Moura/Agência O GLOBO



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