Chuvas de proporções inéditas para a região, iniciadas na segunda-feira, deixaram um rastro de destruição na Zona da Mata de Minas Gerais. Em Juiz de Fora, a cidade mais atingida, 24 pessoas morreram em sete deslizamentos. Na vizinha Ubá, foram seis óbitos, totalizando 30 vítimas fatais confirmadas até as 21h de terça, segundo o Corpo de Bombeiros, além de 39 desaparecidos e 440 desabrigados. Pelo menos cinco crianças estão entre os mortos. O trabalho de resgate, previsto para continuar ao longo da noite, é dificultado pelo solo ainda encharcado.
— Minha filha, Sofia, de 6 anos, está desaparecida. Estamos aqui para encontrá-la, com Deus nos dando força e confortando nossos corações, para que possamos achá-la com vida. Estamos lutando por isso — disse ao portal g1, ainda pela manhã, Valtencir Coutinho de Miranda.
O volume de precipitações já tornou o atual mês de fevereiro como o mais chuvoso da história de Juiz de Fora: são 579,3 milímetros acumulados, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), 270% a mais do que o nível previsto, superando o recorde anterior, de 1988.
O governo federal reconheceu o estado de calamidade pública decretado pela prefeitura de Juiz de Fora, e o governo mineiro decretou luto de três dias. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prestou solidariedade às vítimas por meio das redes sociais e declarou ter determinado “pronta mobilização”, com envio de equipes do SUS à região.
Já o governador Romeu Zema (Novo) chegou a Juiz de Fora no fim da tarde e acompanhou o trabalho dos socorristas. Pela manhã, ele havia sido alvo de críticas pela atenção dada à crise, uma vez que só o vice Mateus Simões (PSD), que assumirá seu posto para disputar a reeleição em outubro, dirigiu-se à região num primeiro momento.
— Tão logo tomamos conhecimento da gravidade das ocorrências aqui, ainda de madrugada, determinei ao coronel Rezende, nosso chefe da Defesa Civil, que empenhasse todos os esforços possíveis no sentido de tentarmos salvar o maior número de pessoas — disse Zema em coletiva de imprensa.
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Em Juiz de Fora, os deslizamentos que deixaram mortos ocorreram nos bairros JK, Santa Rita, Vila Ideal, Lourdes, Vila Alpina, São Benedito e Vila Olavo Costa. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram o grau de destruição causada na região. Em imagem que repercutiu, uma mulher se segurava a um poste em meio à enxurrada. Outra gravação mostrou caixões sendo levados pela água em Ubá, próximo a uma agência funerária. Houve ainda registros de uma casa de repouso inundada na qual idosos boiavam sobre colchões.
Em meio ao transtorno, moradores receberam alertas de emergência no celular. Segundo a prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), diversos bairros ficaram ilhados.
— O Rio Paraibuna saiu da calha, o que também é uma coisa histórica. Os córregos estão todos absolutamente transbordando. É uma situação de calamidade — resumiu a petista em comunicado divulgado nas redes sociais.
A prefeitura instituiu estado de calamidade pública, que vigorará por 180 dias, e as aulas nas escolas municipais foram suspensas. Houve evacuação completa de 25 ruas, e 15 colégios funcionaram como ponto de acolhimento. A administração ainda alertou que há páginas falsas sendo criadas na internet para arrecadação de recursos às vítimas atingidas.
Em Ubá, serviços de saúde no município precisaram ser interrompidos devido à inundação. Em nota, a prefeitura informou a suspensão da Farmácia Municipal, do Centro de Especialidades Odontológicas (CEO), da Policlínica Regional e da EAP Central.
Temporal causa destruição e deixa ao menos 16 mortos em Juiz de Fora (MG)
Prefeitura informou que mais de 400 desabrigados, e Corpo de Bombeiros busca por desaparecidos
Segundo meteorologistas, não houve um fenômeno incomum, mas o recorde de precipitação reforça o “novo normal” das mudanças climáticas e a recorrência de eventos extremos. A tempestade foi considerada uma chuva típica de verão, em meio a dias de muito calor e umidade. Mas uma situação, que também não é rara durante essa época do ano, favoreceu o temporal: um cavado na região de Juiz de Fora.
Trata-se de uma região alongada de baixa pressão, geralmente em médios níveis da atmosfera, que favorece a subida do ar e a formação de nuvens e tempestades. É como se fosse uma área onde o ar está “mais leve” e em altitudes elevadas, o que cria um efeito de sucção, puxando a umidade do solo para o alto.
— Foi uma tempestade de caráter mais isolado que despejou uma quantidade absurda de chuva em Juiz de Fora, similar ao que aconteceu na Baixada Fluminense. Grande parte do Sudeste está com um aporte de umidade muito grande, e com o calor durante o dia, essas instabilidades crescem acentuadamente durante a tarde e a noite — explica Wanderson Luiz Silva, meteorologista da UFRJ.
Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (UFA), cita outras influências para a chuva e faz um alerta:
— O pior já passou, mas pode ser que uma Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) se forme nos próximos dias, trazendo ainda mais chuvas.
O Inmet emitiu um aviso de “grande perigo” para o acumulado de chuva que atinge 607 cidades do Sudeste, Sul e Nordeste do país. O alerta começou na terça e permanece em vigor até a próxima sexta-feira.